I –
Diferenciação
De acordo com Lagati (1995, p.306), a
“Surdocegueira é uma condição que apresenta outras dificuldades além daquelas
causadas pela cegueira e pela surdez...”. O mesmo autor (1995) diz que a nomeclatura
Surdocegueira vem sendo adotada pelas instituições internacionais, ou seja,
estão abandonando a palavra combinada surdo-cego por indicar uma condição que
somaria as dificuldades da surdez e da cegueira, em defesa da condição imposta
pela “Surdocegueira” que não é simplesmente a somatória de duas deficiências e
sim uma dificuldade com características únicas, que as pessoas surdocegas têm
para contatar o mundo e conseguir inserir-se nele.
Serpa (2002) assinala que a surdocegueira
é uma limitação que se caracteriza por sérios problemas relacionados a
comunicação com o meio; sérios problemas relacionados com a orientação no meio;
sérios problemas relacionados à obtenção de informações. A surdocegueira pode
ser dividida em dois grupos – surdocegos congênitos ( quem nasce com esta única
deficiência, como por exemplo pela rubéola adquirida no ventre da mãe ), surdocegos adquiridos ( quem nasce ouvinte,
vidente, surdo ou cego e adquire, por diferentes fatores, a surdocegueira ). E
dependendo da idade em que a deficiência se estabeleceu pode-se classificá-la em Surdocegos Pré- linguísticos – a pessoa que adquiriu a
surdocegueira antes da aquisição da linguagem, seja oral ou gestual ; Surdocegos Pós- linguísticos – a pessoa que já havia
dominado uma linguagem e adquire a surdocegueira.
Considerando que a surdocegueira
caracteriza o comprometimento auditivo e visual, é necessário descrever as
especificidades de cada uma dessas deficiências. Autores como Writer (1987),
Freeman (1991), Wheeler e Griffin (1997), McInnes (1999), Maia (2000) são
unânimes na defesa da surdocegueira como uma deficiência única e não a soma de
dois comprometimento sensoriais. Essa defesa passa pelas implicações
decorrentes da associação dos comprometimentos especificamente na comunicação,
na mobilidade e na recepção da informação.
Conforme a Lei 7.853 de 24 de outubro de
1989, a definição para a pessoa com deficiência múltipla é aquela que tem mais de
uma deficiência associada ( intelectual / visual / auditivo / física ), com
comprometimentos que acarretam consequências no seu desenvolvimento global e na
sua capacidade adaptativa.
Para Sneel (1978), são todos os indivíduos
com deficiência mental moderada ou profunda que têm pelo menos mais uma
deficiência ( auditiva, visual, paralisia, etc). Na concepção de Lontag, Smith
e Sailor (1997) ... as crianças com defici~encia múltipla e graves são aquelas
cujas principais necessidades educacionais são o estabelecimento e o
desenvolvimento de habilidades básicas nas áreas social, de auto-ajuda e
comunicação...
A Deficiência Múltipla (DMU) é uma
condição que resulta de uma etiologia congênita ou adquirida, segundo Orelove e
Sobsey (2000) quanto maior for o número de deficiências, maior o risco da
pessoa não conseguir fazer uso de todas as habilidades que possui e, assim
sendo, a associação de diferentes problemas resultará em necessidades
educacionais únicas, fazendo-se necessário dar atenção a dois aspectos: a
comunicação e o posicionamento.
II –
Necessidades Básicas
Considera-se como necessidades básicas das
pessoas com surdocegueira e com DMU:
- O desenvolvimento da imagem corporal,
conceito corporal e consciência sensorial;
- A boa adequação postural e a harmonia
dos movimentos;
- A autonomia em deslocamentos e
movimentos;
- O aperfeiçoamento das coordenações:
viso-motora, motora global e fina;
- O desenvolvimento da força muscular;
- Aprender a usar as duas mãos, os que não
possuem graves problemas motores, para minimizar as eventuais estereotipias
motoras e desenvolver um sistema estruturado de comunicação;
- Constante interação com o meio ambiente;
- Aquisição da linguagem estruturada no
registro simbólico, verbal, gestual, outros registros.
Segundo Gense e Gense (2004) e Giacomini
(2005), as necessidades que a pessoa com surdocegueira e com deficiência
múltipla ( sensorial e motora ) tem de aprender e de utilizar as técnicas de
orientação e mobilidade estão relacionadas a três aspectos – vínculo, segurança
e comunicação, que antecedem as próprias técnicas.
III
– Estratégias Utilizadas para Aquisição da Comunicação
A princípio, todos os recursos de
comunicação precisam ser adaptados a especificidade das pessoas Surdocegas e
com DMU sensorial. No caso do surdocego, o sentido do tato é a via mais
promissora no desenvolvimento da linguagem, da comunicação receptiva e
expressiva. “E o que é comunicação? É a troca de informação entre duas ou mais
pessoas. (Maia, 2008), Nunes (2002) discorre sobre as consequências que podem
ocorrer da falta de uma comunicação, a exemplo de dificuldades comportamentais
e hiperatividade, comportamentos obsessivos, agressividade e auto-agressão,
estereotipias, auto – estimulação, distúrbios de atenção, e outros.
Pode-se utilizar vários recursos na comunicação tanto para a surdocegueira como
para a DMU, entre os quais: gestos, símbolos tangíveis; leitura tátil da
vibrações produzidas durante a emissão verbal (Tadoma); sistema Braillee;
alfabeto dactilológico; objetos de referências para atividades e situações da
vida diária e aprendizagem; calendários de antecipação / comunicação / tempo /
apoio emocional; escrita ampliada; recursos da comunicação alternativa e
aumentativa; sistemas pictográfico de comunicação. Ambas as deficiências requer
estratégias planejadas sistemáticas, em um ambiente reativo de respostas as
iniciativas de comunicação pré-simbólica ou simbólica desses indivíduos,
desenvolvendo as atividades dentro de um contexto de aprendizagem construtivo –
ecológico - responsivo para o estabelecimento de uma comunicação.
Importante destacar que “..., todo
trabalho com o aluno com DMU e com surdocegueira implica em constante interação
com o meio ambiente. Este processo interacional é prejudicado quando as
informações sensoriais e a organização do esquema corporal são deficitárias” (UFC
– MEC, 2010 ). No entanto, toda estratégia utilizada para aquisição da
comunicação deve ser focada nas possibilidades de cada indivíduo com suas particularidades.
___________________________________________
Referências:
BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R.
S. H.; MAIA. Shirley R. Coletânea UFC – MEC/2010: A Educação Especial na
Perspectiva da Inclusão Escolar – Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência
Múltipla.
BLAHA, Robbie. Calendários – Para Alunos com
Múltiplas Deficiência Incluindo Surdocegueira. Escola Texas para cegos e com
baixa visão – 2003. Tradução em 2005 – Projeto Horizonte. Tradução: Marcia
Maurilio Souza. Revisão: Shirley Rodriguês Maia e
Lília Giacimini.
Folheto FACT3 – COMMUNICATION / Primavera 2005 – Lousiana Department of
Education 1.877.453.2721 State Board of Elementary and Secondary Education. Tradução: Vula Maria
Ikonomidis. Revisão: Shirley Rodrigues Maia, Junho de 2008.
GIACOMINI, Lilia et all. Coletânea UFC –
MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar – Fascículo
07: Orientação e Mobilidade, Adequação postural e Acessibilidade Espacial.
IKONOMIDIS, Vula Maria. Apostila sobre
“Deficiência Múltipla Sensorial”, 2010 sem publicar.
NASCIMENTO, Fátima Ali Abdalah Abdel Cader;
COSTA, Maria da Piedade Resende. Descobrindo a Surdocegueira – Educação e
Comunicação. EduFSCar, São Carlos, 2005.
ROWLAND, Charity; SCHWEIGERT, Philip.
Soluções Tangíveis para indivíduos com Deficiência Múltipla e ou com
Surdocegueira. Apostila In mimeo. Tradução Acess. Revisão: Shirley R. Maia,
2013.
SERPA, Ximena Fonegra. Comunicação para
Pessoas com Surdocegueira. Tradução do livro Comunicacion para Persona
Surdociegas, INSOR – Colômbia, 2002.
Olá colega,
ResponderExcluirAchei interessante como vc organizou seu texto, não fugindo a nenhuma das questões e colocando as informações necessárias a compreensão das deficiências estudadas.
Parabéns!