sábado, 12 de abril de 2014

Informativo Sobre Surdocegueira e Deficiência Múltipla


I – Diferenciação

     De acordo com Lagati (1995, p.306), a “Surdocegueira é uma condição que apresenta outras dificuldades além daquelas causadas pela cegueira e pela surdez...”. O mesmo autor (1995) diz que a nomeclatura Surdocegueira vem sendo adotada pelas instituições internacionais, ou seja, estão abandonando a palavra combinada surdo-cego por indicar uma condição que somaria as dificuldades da surdez e da cegueira, em defesa da condição imposta pela “Surdocegueira” que não é simplesmente a somatória de duas deficiências e sim uma dificuldade com características únicas, que as pessoas surdocegas têm para contatar o mundo e conseguir inserir-se nele.
     Serpa (2002) assinala que a surdocegueira é uma limitação que se caracteriza por sérios problemas relacionados a comunicação com o meio; sérios problemas relacionados com a orientação no meio; sérios problemas relacionados à obtenção de informações. A surdocegueira pode ser dividida em dois grupos – surdocegos congênitos ( quem nasce com esta única deficiência, como por exemplo pela rubéola adquirida no ventre da mãe ),  surdocegos adquiridos ( quem nasce ouvinte, vidente, surdo ou cego e adquire, por diferentes fatores, a surdocegueira ). E dependendo da idade em que a deficiência se estabeleceu pode-se  classificá-la em Surdocegos  Pré- linguísticos – a pessoa que adquiriu a surdocegueira antes da aquisição da linguagem, seja oral ou gestual ;  Surdocegos  Pós- linguísticos – a pessoa que já havia dominado uma linguagem e adquire a surdocegueira.
     Considerando que a surdocegueira caracteriza o comprometimento auditivo e visual, é necessário descrever as especificidades de cada uma dessas deficiências. Autores como Writer (1987), Freeman (1991), Wheeler e Griffin (1997), McInnes (1999), Maia (2000) são unânimes na defesa da surdocegueira como uma deficiência única e não a soma de dois comprometimento sensoriais. Essa defesa passa pelas implicações decorrentes da associação dos comprometimentos especificamente na comunicação, na mobilidade e na recepção da informação.
     Conforme a Lei 7.853 de 24 de outubro de 1989, a definição  para a pessoa com  deficiência múltipla é aquela que tem mais de uma deficiência associada ( intelectual / visual / auditivo / física ), com comprometimentos que acarretam consequências no seu desenvolvimento global e na sua capacidade adaptativa.
     Para Sneel (1978), são todos os indivíduos com deficiência mental moderada ou profunda que têm pelo menos mais uma deficiência ( auditiva, visual, paralisia, etc). Na concepção de Lontag, Smith e Sailor (1997) ... as crianças com defici~encia múltipla e graves são aquelas cujas principais necessidades educacionais são o estabelecimento e o desenvolvimento de habilidades básicas nas áreas social, de auto-ajuda e comunicação...
     A Deficiência Múltipla (DMU) é uma condição que resulta de uma etiologia congênita ou adquirida, segundo Orelove e Sobsey (2000) quanto maior for o número de deficiências, maior o risco da pessoa não conseguir fazer uso de todas as habilidades que possui e, assim sendo, a associação de diferentes problemas resultará em necessidades educacionais únicas, fazendo-se necessário dar atenção a dois aspectos: a comunicação e o posicionamento.

II – Necessidades Básicas

     Considera-se como necessidades básicas das pessoas com surdocegueira e com DMU:
     - O desenvolvimento da imagem corporal, conceito corporal e consciência sensorial;
     - A boa adequação postural e a harmonia dos movimentos;
     - A autonomia em deslocamentos e movimentos;
     - O aperfeiçoamento das coordenações: viso-motora, motora global e fina;
     - O desenvolvimento da força muscular;
     - Aprender a usar as duas mãos, os que não possuem graves problemas motores, para minimizar as eventuais estereotipias motoras e desenvolver um sistema estruturado de comunicação;
     - Constante interação com o meio ambiente;
     - Aquisição da linguagem estruturada no registro simbólico, verbal, gestual, outros registros.
     Segundo Gense e Gense (2004) e Giacomini (2005), as necessidades que a pessoa com surdocegueira e com deficiência múltipla ( sensorial e motora ) tem de aprender e de utilizar as técnicas de orientação e mobilidade estão relacionadas a três aspectos – vínculo, segurança e comunicação, que antecedem as próprias técnicas.

III – Estratégias Utilizadas para Aquisição da Comunicação

     A princípio, todos os recursos de comunicação precisam ser adaptados a especificidade das pessoas Surdocegas e com DMU sensorial. No caso do surdocego, o sentido do tato é a via mais promissora no desenvolvimento da linguagem, da comunicação receptiva e expressiva. “E o que é comunicação? É a troca de informação entre duas ou mais pessoas. (Maia, 2008), Nunes (2002) discorre sobre as consequências que podem ocorrer da falta de uma comunicação, a exemplo de dificuldades comportamentais e hiperatividade, comportamentos obsessivos, agressividade e auto-agressão, estereotipias, auto – estimulação, distúrbios de atenção, e outros.
     Pode-se utilizar vários recursos na  comunicação tanto para a surdocegueira como para a DMU, entre os quais: gestos, símbolos tangíveis; leitura tátil da vibrações produzidas durante a emissão verbal (Tadoma); sistema Braillee; alfabeto dactilológico; objetos de referências para atividades e situações da vida diária e aprendizagem; calendários de antecipação / comunicação / tempo / apoio emocional; escrita ampliada; recursos da comunicação alternativa e aumentativa; sistemas pictográfico de comunicação. Ambas as deficiências requer estratégias planejadas sistemáticas, em um ambiente reativo de respostas as iniciativas de comunicação pré-simbólica ou simbólica desses indivíduos, desenvolvendo as atividades dentro de um contexto de aprendizagem construtivo – ecológico - responsivo para o estabelecimento de uma comunicação.
     Importante destacar que “..., todo trabalho com o aluno com DMU e com surdocegueira implica em constante interação com o meio ambiente. Este processo interacional é prejudicado quando as informações sensoriais e a organização do esquema corporal são deficitárias” (UFC – MEC, 2010 ). No entanto, toda estratégia utilizada para aquisição da comunicação deve ser focada nas possibilidades de cada indivíduo com  suas particularidades.


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Referências:
BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA. Shirley R. Coletânea UFC – MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar – Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla.
BLAHA, Robbie. Calendários – Para Alunos com Múltiplas Deficiência Incluindo Surdocegueira. Escola Texas para cegos e com baixa visão – 2003. Tradução em 2005 – Projeto Horizonte. Tradução: Marcia Maurilio Souza. Revisão: Shirley Rodriguês Maia e Lília Giacimini.
Folheto FACT3 – COMMUNICATION / Primavera 2005 – Lousiana Department of Education 1.877.453.2721 State Board of Elementary and Secondary Education. Tradução: Vula Maria Ikonomidis. Revisão: Shirley Rodrigues Maia, Junho de 2008.
GIACOMINI, Lilia et all. Coletânea UFC – MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar – Fascículo 07: Orientação e Mobilidade, Adequação postural e Acessibilidade Espacial.
IKONOMIDIS, Vula Maria. Apostila sobre “Deficiência Múltipla Sensorial”, 2010 sem publicar.
NASCIMENTO, Fátima Ali Abdalah Abdel Cader; COSTA, Maria da Piedade Resende. Descobrindo a Surdocegueira – Educação e Comunicação. EduFSCar, São Carlos, 2005.
ROWLAND, Charity; SCHWEIGERT, Philip. Soluções Tangíveis para indivíduos com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira. Apostila In mimeo. Tradução Acess. Revisão: Shirley R. Maia, 2013.

SERPA, Ximena Fonegra. Comunicação para Pessoas com Surdocegueira. Tradução do livro Comunicacion para Persona Surdociegas, INSOR –  Colômbia, 2002.